UMA SEGUNDA CHANCE - 0.7
Origem
[F.: Do lat. secretum -i. Hom./Par.: segredo (sm.), segredo (fl. de segredar).]
"O que ninguém deve saber"
ATENÇÃO
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Adormeci após a leitura do livro e sonhei com muitas coisas, mas nada que fizesse sentido ou que pudesse vir a ser uma visão ou uma lembrança. Sonhei que voava, ou melhor, que caía entre as nuvens, me afogando no vento. Eu caí numa árvore, uma extremamente grande, maior que a Zoriontasuna*, e, de repente, tudo pegava fogo. As pessoas queimavam e gritavam por socorro, vi Mi-la e diversas pessoas tentando apagar o fogo com seus poderes e Satto chorava como uma criança — confesso que isso ao menos foi engraçado. Foi um caos, mas eu não estava machucado, não estava queimando ou sufocado pela fumaça; mas eu senti verdadeiramente a dor daquele momento, em que meu coração parecia estar despedaçado, como se estivessem apertando ele com força sobre minha pele. E então eu acordei.
Ainda não havia amanhecido completamente, mas estava chovendo fraco, assim como ontem, no morro. O cheiro que subia era reconfortante, dava a sensação de algo que eu já havia sentido antes, mas o quê? Levantei calmamente e andei pelo chão de madeira que rangia e fui até a janela que estava aberta. O chão estava molhado, na verdade, estava cheio d'água, havia criado uma poça de água. Quem foi o imbecil que deixou isso aberto? Possivelmente eu mesmo, mesmo que, em minha memória, ela estivesse fechada ontem à noite. Encostando na janela molhada, senti o cheiro doce muito mais forte, invadindo meu cérebro. As mesmas flores brancas que eu havia visto no caminho para a casa daquele velho decrépito: as Yoky's. As flores não eram ruins, mas eu não aguento toda essa história, tudo aqui me deixa puto, inclusive essas flores idiotas e cheirosas.
Desde que cheguei, sinto uma vontade imensa de gritar com todo mundo, de arrumar confusão ou de apenas morrer. Mas naquele momento, olhando as belas flores brancas de caule amarelo, eu senti vontade de chorar. Eu não quero chorar, mas algo em meu corpo diz que eu preciso. Balanço a cabeça, respiro fundo e engulo o choro. Não vai ser agora. Não é hora.
Ao invés de chorar, fecho a janela e procuro alguma roupa limpa para usar, mas ao fazer isso, passo pelo espelho novamente. Não estava ali há tantos dias, mas percebi algumas marcas de expressão não existentes, provavelmente pelo sentimento constante de raiva, medo e desespero. Apesar disso, decidi me olhar um pouco mais dessa vez, principalmente ao trocar de roupa, já que naquele dia apenas meu rosto era motivo de nojo. Tentei não ser negativo, mas eu, realmente, estava muito doente. Nenhuma das pessoas que eu vi por aqui era tão magra a esse ponto. Podia ver meus ossos sobressaltados, como se eu tivesse passado fome por anos e anos. Tentando deixar tudo isso de lado, foco especialmente numa cicatriz diferente. Não era o machucado anterior, nem os cortes no braço, mas estavam embaixo do peitoral. Não doía, era um corte bem feito, não era feio como os outros e ver isso me deu uma sensação de alívio, um sentimento bom.
Quando abro a porta, sou recebido amigavelmente pelo vento e pela garoa que caía majestosamente. O céu deixou o preto azulado, dando espaço para outras cores se conectarem e darem bom dia. Imagino Dewi, a deusa, com um pincel mágico pintando de roxo, rosa, amarelo e laranja como se fosse um quadro de arte. A cidade permanecia silenciosa e o único barulho, além da chuva, era dos pássaros acordando; um meio azulado com branco sobrevoou por cima da minha cabeça, bagunçando meu cabelo laranja, talvez houvesse me confundido com uma flor. Continuo andando por entre as casas de madeira, enquanto me esquivo das flores brancas presentes por toda parte. Não sei para onde estou indo e talvez não queira saber, estou apenas exercendo meu direito de existir em meio ao nada e a tudo.
O sol já estava alto, provavelmente o relógio maluco da casa maluca marcava 5 horas, e daqui a algumas horas alguém estaria procurando por mim. Honestamente, quero que todos se fodam! Volto quando quiser voltar, pois, já que ninguém me conta porra nenhuma, eu mesmo irei atrás de tudo. Não me parece um lugar tão difícil de andar, sou inteligente e consigo me encontrar. Passo por uma pequena bifurcação, a da esquerda me parecia mais agradável, pois havia pegadas, ou seja, sinais de que passavam por ali; diferentemente da direita, que tinha uma aparência podre, galhos quebrados e sem sinal de que alguém tivesse tido coragem de adentrar.
O caminho da esquerda era iluminado, apesar do 'teto' de árvores que pingavam pequenas gotas da chuva que havia passado há poucos minutos. Não havia flores brancas de caule amarelo, mas as folhas das árvores eram diferentes das que eu pude reconhecer. Enquanto eu andava, folhas caíam na minha cabeça, folhas arredondadas, quase como um círculo perfeito, laranjas da mesma tonalidade do meu cabelo e eram muito grandes, apesar de leves. Continuei andando, observando e tentando captar alguma outra esquisitice, mas a única coisa mais esquisita que aquelas folhas era a minha própria presença — pelo menos naquele momento e naquela pequena estrada de terra.
Depois de dar voltas e mais voltas, marcando mentalmente por onde eu passava, descobri que, infelizmente, eu não sou assim tão inteligente.
Me perdi. Nessa. Porra.
Espero que eu seja explodido e manche essas árvores bonitas de sangue e órgãos para que todos se sintam mal por tudo que me disseram. Não lembro em que momento o caminho das folhas grandes havia acabado, mas agora não há mais nada além de árvores comuns por toda parte e pouquíssima presença de luz.
Em meio ao desespero dos meus pensamentos e ao simples e mero fato de que eu estava perdido entre centenas de árvores, sinto algo me puxando com muita força, mas quando eu olho para o lado, vejo apenas um animal esquisitamente fofo: um bicho laranja e peludo, com grandes orelhas vermelhas, dentes afiados e um rabo espinhoso, porém com olhos tão grandes e brilhantes que, por um momento, me senti um viajante dos céus. Creio que vi estrelas passando por aqueles olhos fofos e hipnotizantes. O bicho pulava alto e foi se afastando, abrindo uma trilha pelas árvores, e eu o segui com grande esperança desse negócio me tirar daqui.
Quando, por fim, vi a luz no fim do túnel, o bicho desapareceu da mesma forma que chegou. Não sei o que era, nem de onde vinha, não sei o que queria ou como sabia que eu precisava de ajuda. Um animal muito simpático, eu diria, até mais do que qualquer outra pessoa que eu conheci aqui. Com a pequena talvez exceção de Levi.
Tentei refazer meus passos para voltar ao caos, mas sair dali foi mais difícil do que encontrar. A floresta havia ficado para trás, mas os caminhos de volta pareciam diferentes agora; não estavam assim antes. Não havia bifurcação, pelo menos não havia o caminho que eu havia tomado. Na minha frente restava o caminho podre, vazio e escuro. Aquele que eu escolhi não escolher. Pelo visto a Deusa queria me tirar desse lugar, mas não vivo.
O caminho é ruim, mas é a única opção; mesmo com os galhos caídos e quebrados atrapalhando a passagem, eu avanço lentamente. O ar ali parecia mais denso do que na floresta, me senti zonzo e meu corpo parecia que pesava uma tonelada, minha visão começou a embaçar e escurecer. O caminho começou a se alongar e eu não conseguia ver o fim, como se estivesse a quilômetros de distância. Ouvi o apito zunindo, aquele apito que carrego comigo sob as camadas de roupas puxava meu corpo para baixo e eu não sabia mais o que era real ou não. Eu deveria ter caído no chão, mas foi como se eu tivesse passado das folhas, da terra, de tudo que era real.
Dessa vez eu não estava no breu, na verdade, estava muito iluminado pela luz do sol. O corpo era meu, eu sentia o coração batendo, sentia o calor extremo do dia e sabia que estava feliz, mas não conseguia controlar nem mesmo a minha respiração. Eu era apenas uma parte minúscula do meu cérebro que podia ver e sentir. Meu corpo começou a se mover, estava andando e, logo depois, corria. O som da minha risada ecoava por todo canto. Não sabia que era capaz de rir, pois não tive oportunidade desde que acordei.
Havia outra voz, logo atrás de mim, mas eu não virava a cabeça e continuava correndo; era uma voz infantil e estridente, mas de quem era? Por favor, apenas vire e mate minha curiosidade. Apenas diga quem somos nós — quem eu sou. Eu tropeço e sinto meu corpo caindo para o abismo — de novo — várias e várias vezes. Até finalmente acordar.
Abri os olhos com dificuldade, minha cabeça latejava e eu ainda não estava enxergando totalmente, mas havia alguém ali. Não uma, mas duas pessoas, uma delas me encarando profundamente no fundo dos meus olhos, com ódio. Ou medo.
— Nah*, pitel do* — disse uma das vozes.
— Por que eu deveria pegá-lo? Não vou tocar nele — responde a outra voz.
— Nah*, alguém vai precisar pegar, e não serei eu.
— Eu também não...
— Será que vocês podem calar a porra da boca?! — Exclamo enquanto levanto.
As duas pessoas na minha frente eram quase idênticas, talvez irmãos. Do lado direito, um garoto alto, cara de debochado; o olhar de ódio. O outro parecia mais amigável, mas não idiota, pois também me olhava com receio. Ambos eram morenos e baixos, com cabelos pretos escorridos. A única diferença entre os dois era a enorme cicatriz na cara do debochado, que rasgava o olho e ia até o lábio. O outro rapaz tinha muitos desenhos pelo corpo, com padrões que eu não soube identificar. Eu os olhava na mesma intensidade com que eles me julgavam.
— Quem são vocês?
— Quem é você? — Os dois dizem ao mesmo tempo.
— Nilo.
— Nós sabemos quem você é. Queremos saber a verdade. De onde você veio?
Antes que eu pudesse responder que não sabia — e possivelmente xingá-los —, um barulho de passos nos alertou. E foi aí que eu percebi que não estávamos mais no caminho ruim, e sim na frente da bifurcação por que eu havia passado no início. Os passos aceleraram, percebi que havia mais de uma pessoa andando. Me preparei para ver algum soldado, alguma arma ou não ver absolutamente nada. Mas então Levi e o pequeno Mio, ao seu lado, apareceram por entre as árvores.
Os dois rapazes olharam imediatamente para os novos rostos que surgiram, não era uma encarada inimiga, mas receosa.
— Söe Kaal*, amigos — Levi cumprimentou — Renhoa*, Tatatĩ*, peço desculpas por terem que lidar com isso. Agradeço por nos comunicarem.
— Há um aviso de anos de que não se deve entrar naquela floresta. Ajudamos hoje, mas não iremos protegê-lo dos Onis na próxima... — o garoto debochado me olha, de canto.
— Renhoa — Mio chama o rapaz com várias tatuagens — é bom te ver.
O rapaz, no entanto, apenas olhou com frieza e desinteresse; a resposta para o cumprimento foi um aceno de cabeça e nada mais. Mio perdeu a cor e o brilho nos olhos, era como ver uma linda flor murchando aos poucos por não ser regada. Todos ali se conheciam, mas Mio e esse cara pareciam ter uma ligação muito mais forte do que apenas "se conhecer".
Eu não havia dito uma palavra desde que Levi e o pequeno feiticeiro chegaram, e eles também não se dirigiram a mim, nem me olharam direito. Eu reconheci que havia cometido um grande erro indo até ali; talvez tenha me triplicado as chances de eu ser um suspeito. Me odiei e me repreendi mentalmente várias e várias vezes até que os dois irmãos se afastaram e deixaram apenas nós três no meio do nada.
Levi não falou nada o caminho todo, o que me deixava ansioso, com o coração apertado, e Mio parecia ter deixado de existir e agia no automático. Andamos por pouco tempo, bem menos do que eu havia levado para chegar até ali, provavelmente pegamos um atalho. Quando chegamos à beira da Vila, Levi finalmente se virou e me olhou com tristeza exalando nos olhos — não, acho que era decepção. Talvez um pouco de preocupação. Mio havia partido em algum momento e agora estávamos apenas nós dois olhando um para o outro, sem saber o que dizer diante da atual situação. Até ele quebrar o silêncio.
— Nilo, eu sei que nós não fomos justos com você; eu reconheço isso mais do que todos aqui, mas isso não depende apenas de mim, entende? — Ele disse essa última parte mais baixo.
Eu não respondi, apenas mantive minha cabeça baixa, me rendendo à bronca que estava levando.
— Isso foi imprudente e muito idiota. Você poderia ter sido morto — eu finalmente olho para ele. — Eu não posso te contar tudo de que eu gostaria, não por enquanto, mas você também não pode agir assim. Se Wogen desconfiar por um segundo que você saiu da Vila e entrou naquele lugar, acredite, Nilo, você está ferrado.
— Espera, o velho não sabe?
— Não, a notícia chegou primeiro a mim e Mio estava por perto, então decidi levá-lo junto, pois ele conhece os irmãos Oso* melhor do que qualquer um do clã. Concordamos em calar a boca e não contar a ninguém sobre isso, mas você precisa prometer que nunca, jamais, em hipótese alguma, fará algo assim de novo — ele suspira — não sem me avisar.
Gostaria de prometer isso a ele, mas não sei se posso prometer algo que não consigo cumprir. Barreiras foram impostas nele e nos demais, e eu não posso discutir, não posso obrigar ninguém a me contar nada, sobrando apenas o meu espírito aventureiro para me ajudar. Terei que mentir, não há outra forma.
— Prometo — minto com um sorriso falso no rosto. Ele não parece acreditar, mas finge que sim; é difícil saber quem está mentindo mais: as emoções nessa interação. Ele sorri de volta, um sorriso encantador, porém triste.
— Mandaram entregar isso a você; é sua lista de tarefas para essa semana — eu olho para ele confuso, com uma sobrancelha arqueada. — Os trabalhos para que deixem você ficar aqui até terem certeza de que você não é... sabe. Bom, você me entendeu. Hoje é dia de limpar a biblioteca, você pode me acompanhar, mas você não irá trabalhar comigo.
Levi me entrega a lista, escrita num papel amarelado com uma caligrafia invejavelmente boa, principalmente para ser de um velho caquético:
Segunda:
Terça: biblioteca;
Quarta: organizar campo de treinamento;
Quinta: Jardim - chalé do Ancião;
Sexta: Feira no centro;
Sábado:
Domingo:
Havia três dias sem trabalho, encarei como dias de folga e decidi não perguntar, pois não queria dar abertura a um novo compromisso. Continuamos andando enquanto falávamos coisas banais e sem importância, como o sol de hoje, a chuva de ontem e o café da manhã. Minhas respostas eram sempre vagas; essa era a minha vingança — bem idiota — de ser tão alheio e vago nas respostas quanto eles eram com as minhas perguntas, que eram infinitamente mais importantes.
Comemos alguns pães e doces numa calçada qualquer, pois já havia passado o horário de se alimentar 'em bando', pois todos pareciam mais um grupo de animais carentes de calor humano do que apenas vizinhos e membros de um clã em específico. Agradeço por ter perdido o horário, pois odiei a experiência de estar com tantas pessoas curiosas de uma só vez. Eu podia passar os próximos minutos — até mesmo o dia inteiro —, mas havia algo que eu precisava perguntar, pelo menos isso ele precisava me dizer.
— Eu vi uma criatura na floresta. Era esquisita — digo sem rodeios.
— Sinta-se especial, Nilo, pois nem todos têm a oportunidade de vê-las. Eu vi um aquático, há alguns anos, era fascinante — ele contava com animação. — Só é possível ver se eles quiserem que você os veja; como foi? Como ela era?
— Bizarra. Mas, ao mesmo tempo, fascinante — como você mesmo disse — foi incrível. Quando eu a olhei nos olhos, eu senti como se minha alma estivesse sendo dissolvida, mas não foi amedrontador; foi libertador — eu o olho, para ter certeza de que estava me acompanhando enquanto divagava. — As orelhas vermelhas eram imensas, eram peludas e... laranja. O rabo era rodeado de espinhos; isso sim me deu medo, mas aquela criatura me tirou daquela floresta; realmente me ajudou.
Eu contava com tanta curiosidade e admiração que nem havia reparado que ele me olhava, com um sorriso pequeno, mas satisfeito. Eu não sorri de volta, não me atreveria a fazê-lo, tampouco tinha vontade. Desviar o olhar foi o melhor a se fazer, mas ele não pareceu irritado ou desgostoso com o gesto repulsivo, apenas levantou e estendeu a mão, para que eu me levantasse também.
— Aqui em Oky Táva há algumas criaturas muito belas e raras; eram muito comuns há algumas décadas, mas desapareceram do nosso dia a dia em algum momento e não as vemos mais. A aquática que me encontrou era a Ipurã, é semelhante a uma serpente, mas possui seis olhos, é impossível alguém passar despercebido dela. O corpo é negro, bom para se camuflar no mar. A Ipurã é uma Neko e essa criatura que te encontrou também era, pois são inteligentes e, geralmente, simpáticas. Mas há também os Onis; esses monstros são perigosos e nunca vi um, de fato. O recomendado é não chegar perto de nenhuma criatura que nos pareça estranha, pois não sabemos qual é a real diferença entre Onis e Nekos.
— Há alguém que também conseguiu ver, além de nós dois?
— Wogen, claro — ele ri, mas logo seu rosto escurece — mas os que viram Onis de perto não voltaram mais para cá — ele sussurra — os que não morrem nas mãos dos monstros são amaldiçoados e não podem voltar para cá, então são sacrificados, para não infectar o restante do clã.
Não pude conter minha surpresa e o horror que surgiu em meus olhos ao ouvir a última parte. Se eu tivesse encontrado um Onis, eu poderia estar morto? Ou melhor, na fila do sacrifício? Sinto pena dos que achavam estar sendo abençoados pela visita de uma bela criatura, mas na verdade estavam prestes a perder a vida, de um jeito ou de outro.
— Você conheceu alguém que...?
— Você está atrasado — uma voz interrompe.
Satto estava parado no meio do caminho, com uma sobrancelha arqueada e com a expressão que eu já posso considerar como normal para o adolescente. Ele vestia roupas azuis e brancas — muito enfeitadas, para o meu gosto — e o cabelo longo e castanho amarrado e muito bem engomado.
— Sua mãe que te arrumou hoje? — A piada inevitável veio com força antes mesmo que eu pudesse pensar, mas me arrependi antes que o ponteiro de segundos no relógio completasse meia volta, pois seu rosto empalideceu e Levi parecia ter sido pego de surpresa com meu comentário. Esperei que alguém falasse algo, mas nada foi dito; os segundos no meio da rua pareciam horas agonizantes, mas finalmente ele quebrou o maldito silêncio:
— Vamos, há muito o que limpar.
Andamos mais algumas ruas abaixo, sem que ninguém abrisse a boca. As pessoas riam e conversavam em frente às suas casas, fofocando com os vizinhos e trocando tortas e bolos, estava tudo tranquilo e eu estava passando despercebido pelos moradores, até que uma das crianças fofoqueiras decidiu puxar a saia amarela de sua mãe e apontar em minha direção. Após isso, dezenas de pares de olhos miraram em minha cabeça, como lanças afiadas preparadas para me matar. O murmúrio cessou e, combinando com o silêncio do nosso grupo, o som das aves era os únicos ruídos pela estrada de terra.
Contudo, o desconforto sumiu quando a biblioteca foi tomando forma diante dos meus olhos: não é gigante, mas isso não quer dizer que seja pequena, muito pelo contrário; não era tão alta, mas me parecia ser muito funda. Era uma construção branca, muito enfeitada com suas flores — que, aliás, percebi ser uma grande paixão desta Vila — a porta era azul e já estava aberta, com algumas pessoas dentro, folheando os livros e conversando baixinho.
Entramos por completo, havia muitas mesas e, como eu pensei, era muito funda, com as prateleiras de fácil acesso. Na mesa à esquerda, um casal lia um livro com capa vermelha, as duas moças estavam sentadas tão próximas que deveriam estar dividindo o mesmo assento. Elas liam, mas, vez ou outra, alguém levantava os olhos e encarava a parceira, com largos sorrisos e brilho nos olhos; mais à frente, um garotinho moreno carregava pilhas de livros esbarrando em outras crianças; o local estava cheio, mas ainda assim parecia uma casa acolhedora — para eles, mas não para mim.
Os garotos que me acompanhavam não falaram muito mais do que o necessário, me entregaram produtos e me desejaram sorte. Levi desapareceu em poucos segundos, provavelmente partindo para a próxima tarefa da sua longa lista de faz-tudo. Satto, por outro lado, ficava me encarando com sangue nos olhos e cada passo meu era analisado por ele. Tento afastar o sentimento incômodo de ser observado e julgado, me esforço para me colocar em seu lugar, mas ainda é irritante o suficiente para que eu levante o rosto de vez em quando para encará-lo de volta.
Tudo o que eu precisava fazer era organizar os livros pela ordem desejada e limpar o pó que estava grudado nas prateleiras, mas eu tinha outro objetivo: encontrar respostas. Essa ideia me ocorreu há pouco, quando me dei conta de que eu estava em uma biblioteca e que em bibliotecas muitos livros interessantes passam, repassam e repousam. Tudo o que eu preciso é saber exatamente o que estou procurando. Passo os dedos pelos livros, procurando algo que pudesse saciar minha curiosidade; não demorou muito para que eu o encontrasse: um livro azul-marinho, bem conservado, mas ainda velho, com o título desenhado na capa de couro "LIENÔE DE LES CRÉATURES"*.
Verifico o paradeiro do adolescente, que conversava amigavelmente com uma das crianças, finalmente largado do meu pé. Ao abrir o livro, uma camada de poeira voa sobre mim; algo me dizia que esse não era um livro de grande interesse dos moradores. Havia pinturas nas páginas amareladas, alguns nomes difíceis de se ler e pequenas descrições. Vi várias criaturas, algumas muito bizarras, outras indecifráveis e poucas genuinamente fofas, mas pelas descrições, eram todos Nekos, criaturas "boas". Revirei as folhas, mas não havia nada sobre os Onis, mas percebi que muitas páginas foram arrancadas ou rasgadas, mas por quê?
Sem muitas respostas, procuro a segunda coisa que poderia me interessar neste livro: àquela criatura que me encontrou na floresta, "Barani: roedor laranja e vermelho...", sua descrição era curta, e muito errônea, por sinal, pois ali dizia que "Baranis eram pequenos", uma grande mentira — aquele animal era quase do meu tamanho, ou quem escreveu isso tinha outra percepção de tamanho —; desenho, por outro lado, era parecido, na medida do possível, orelhas grande e grandes olhos pretos. Antes que eu pudesse terminar minha leitura, escuto um "baque" logo em minha frente.
— Não sabia que tínhamos lhe dado uma pausa para o café — Satto se esforçava para falar baixo, mesmo com sua voz esganiçada. — Volte ao trabalho.
Reviro os olhos sem nem me importar se o adolescente vai ver ou não, mas torço para que veja. Quando decido voltar ao trabalho, sinto um arrepio na espinha repentinamente, mas não vejo nada de diferente no ambiente; sinto um calafrio, mas disfarço o susto. Coloquei os livros do carrinho em ordem na prateleira, tentei esquecer e agilizar em minha tarefa para que pudesse sair rápido daqui, mas quando fui colocar o livro das criaturas de volta, vi um pedaço de papel dobrado no lugar em que o livro deveria estar. O papel não estava amassado, não era velho, era novo, como se alguém tivesse acabado de colocá-lo ali.
Seção 5, prateleira W, décimo vermelho da esquerda para direita, 01h
Não entendo bem o que aquilo queria dizer, tampouco sei quem colocou o bilhete ali. Não sei nem se isso deveria ser para mim, mas atiçou minha curiosidade, então agora vai ter que ser.
Faço o possível para terminar meu serviço o mais rápido possível, mesmo que as prateleiras fiquem um pouco empoeiradas e os livros bagunçados. Satto havia cansado de me observar e mandou vários pirralhos ficarem de olho em mim, então dezenas de olhos grandes e brilhantes acompanhavam cada passo meu, enquanto isso, Satto paquerava algumas garotas que riam calorosamente do papo galanteador do adolescente.
Assim que acabo, bato o meu ponto e saio da biblioteca, andando rápido de volta para o meu pequeno quarto solitário, bem longe de todos os olhares e risos exageradamente altos. Quando finalmente chego, me jogo na cama e apago, finalmente descansando.
Durmo por algumas horas, escuto batidas na porta e meu nome é chamado inúmeras vezes, mas não levanto. Depois de tanto gritar e nenhuma resposta minha chegar, as vozes cessaram e desistiram de chamar a minha atenção. Levantei depois de muito tempo, enjoado de fome e zonzo, com a cabeça doendo e o peito carregado, sentia o gosto de sangue nos lábios.
Fico sentado na beirada da cama por alguns segundos esperando minha alma voltar para o corpo, minha barriga ronca e sinto uma pontada de arrependimento de não ter ido comer logo após o trampo. Um cheiro forte me chama a atenção, algo como frango, talvez pimenta. Olho ao redor e, em cima da mesinha, há um pote branco, dono do cheiro delicioso, e uma jarra cheia de água.
Não demoro nem mais um minuto antes de atacar a comida com vontade, preenchendo o vazio do meu estômago, porém, um "toc toc" repentino soa do lado de fora, atrapalhando meu jantar. Penso em ignorar, mas me sinto culpado e desconfortável de fingir que não escuto, principalmente se o colega do outro lado for alguém que me ajudou tanto nesses últimos dias.
Limpo a boca com a manga da blusa e corro para abrir a porta, mas não há mais ninguém ali. Não havia demorado tanto para abrir a porta, e creio que não seja possível alguém ser tão rápido para bater na porta e sumir sem deixar uma poeira para trás. Antes de voltar para dentro, escuto um barulho de um tic-tac baixinho, quase imperceptível, mas ao olhar para baixo, vejo um pequeno relógio que marcava 23h45.
Instintivamente, coloco a mão no bolso, onde sinto o pedaço de papel que encontrei na prateleira hoje cedo, e me pego da dúvida: ir ou não ir? Prometi a Levi que não sairia da linha, eles vêm me ajudando desde o dia em que cheguei; Hirak também se esforçou bastante para me manter aqui, não seria justo com eles... mas algo me chamava, e eu precisava descobrir. O mal do curioso é não saber lidar por não ter a fofoca completa.
Saio do quarto com a comida na boca, ainda mastigando os pedaços de frango e me arrependendo de não ter pegado um pouco mais de água para aliviar o gosto forte de pimenta. Refaço todos os passos que fizemos pela manhã até chegar na biblioteca novamente, mas então me deparo com um grande problema, o qual eu não havia pensado em enfrentar: a biblioteca estava trancada. Não gosto da ideia de arrombar um portão, e, apesar da escuridão e do vazio das ruas, a culpa será jogada em mim por qualquer mínima coisa suspeita que aconteça neste lugar.
Procuro qualquer brecha que possa me deixar entrar, mas não encontro nada nem outra pista deixada em algum papel amassado. Penso que cheguei ao fim da minha missão sem ao menos completá-la. Se não deu certo, significa que foi um livramento de me ferrar, porém, ao me virar para ir embora, me assusto com uma presença assustadora e inesperada: um pássaro escamoso e espinhento, da cor negra e com olhos vermelhos sangue, me olhava atentamente. Ele tinha um bico grande e as asas bem volumosas. Era uma criatura, mas não lembro de ver essa espécie nos livros. Sinto um calafrio percorrendo meu corpo, sem saber no que aquilo poderia resultar. Não poderia ser um Onis. Torço para que não seja. Desejo do fundo do meu coração que seja uma raça nova não identificada e catalogada nos livros. Ela levanta voo, abre suas asas magníficas e gigantes, porém extremamente silenciosa, não vinha ruído algum, nem mesmo ao bater as asas. Ela voa baixo, insinuando que eu deveria seguir esse caminho, e eu, de fato, a sigo.
Ela voa ao redor da biblioteca, mas repousa num canto escuro cheio de caixas empilhadas; ao analisar e forçar a vista para enxergar naquela escuridão, vejo que a ave está sobre uma grade. Ela me olha, como se já tivesse dito tudo sem pronunciar uma palavra sequer, e eu a entendo. Faço força para abrir e retirar a grade que levava a um possível túnel, e então o pássaro misterioso desaparece em silêncio, pois sua missão havia terminado.
Ao entrar no local apertado e claustrofóbico, me sinto em completo desespero e cheio de arrependimento; a coragem que eu tinha há poucos minutos havia desaparecido por completo. Ainda assim, caminho rapidamente pela via única daquele túnel estreito, não demorando muito até que eu encontrasse a saída, mas a grade não estava emperrada ou difícil de empurrar, na verdade, estava solta, entreaberta e uma lamparina estava logo ao lado. Alguém havia passado por aqui.
Dentro da biblioteca, fora daquele lugar apertado, tateio os bolsos em busca do papel com as instruções de que eu precisava.
— Seção 5, prateleira W, décimo vermelho da esquerda para a direita... — falo comigo mesmo enquanto procurava o lugar certo em meio ao labirinto dentro da biblioteca. — Seção cinco! A prateleira W seria a última... livro vermelho, onde está você? Um, dois, três — conto enquanto passo os olhos pelos títulos engraçados — quatro... O romance das cenouras? Quem escreve uma coisa dessas? Cinco, seis, sete, oito, nove... Livro vermelho!
Na minha cabeça, ao puxar o livro, eu conseguiria novas pistas ou alguma coisa semelhante, mas jamais havia passado na minha cabeça que uma madeira do chão se soltaria. Quem puxasse o livro sem querer no meio do dia não perceberia, mas no meio da noite, o pequeno "click" era alto o suficiente para chamar a atenção. Não demorei em ir checar e achar uma trava para levantar o resto da "porta"; a lamparina iluminava as escadas de pedra, mas não era o suficiente para me fazer enxergar muito à frente.
— Essa coisa não tem fim? —Suspirei ofegante.
Contudo, quando eu achei que aquilo era uma armadilha de otários sem fim, vi uma pequena luz vindo debaixo, que foi se aumentando a cada passo. Quando percebi que a luz subia, congelei no mesmo instante. Não era uma luz para iluminar o corredor, mas sim uma pessoa que estava vindo ao meu encontro. E estava cada vez mais perto.
— Que merda você está fazendo aqui, Nilo?
VOCABULÁRIO:
Zoriontasuna*: APENAS UM NOME PARA A ÁRVORE
Nah*: EI
pitel do*: VOCÊ PEGA:
Pitel: do verbo pegar;
DO: VOCÊ
Söe Kaal*: SAUDAÇÕES
Renhoa*: NOME DO PERSONAGEM: Variação: rễ hoa, traduzido do vietnamita: raizes das flores
Tatatĩ*: NOME DO PERSONAGEM: Nomes indígenas: fumaça
Oso*: SOBRENOME DOS PERSONAGENS: Do guarani: Urso
"LIENÔE DE LES CRÉATURES"*: O LIVRO DAS CRIATURAS
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