UMA SEGUNDA CHANCE 0.6 - O LIVRO D'ÁGUA

                         O LIVRO D'ÁGUA

3 - Uma não rainha e o seu não rei - parte 1

VOCABULÁRIO NO FINAL DA PÁGINA PARA PALAVRAS COM *

"Quando acabar, vamos nos casar". Essa era a frase que atormentava minha mente, ele havia prometido, o grupo havia criado o plano perfeito... o que havia dado errado? Eu havia sido traída? Não, não pode ser. A imagem de Nilo, um jovem de cabelos negros, pele morena e nariz achatado; eu sempre dizia que parecia uma batata e ele brigava comigo, mas eu o amava. Como foi que tudo isso aconteceu?


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Há muitos anos atrás, uma jovem e linda mulher era treinada para guerrear. Banyu, uma guerreira de cabelos negros e escorridos, olhos puxados e pele morena. Era baixa, mas tamanho definitivamente não queria dizer nada, pois era forte como um Onkára, esperta como um Ipurã, rápida como um Uirak e silenciosa como um Escorpidé.*


Ainda assim, não pôde lutar contra o amor de um guerreiro inimigo. Banyu havia se apaixonado perdidamente após atirar uma flecha envenedada em um guerreiro de Pireo; não era a intenção, claro que não. Banyu recolhia os corpos que matava e lhes dava uma despedida justa. Ela era uma guerreira, mas, acima de tudo, uma humana; não matava porque gostava, matava por necessidade e sobrevivência. Portanto, ao recolher o corpo do homem, percebeu que ele ainda estava vivo, respirado pesadamente, pálido como as núvens, olhos perdendo a vida, mas exibia um sorriso singelo, como se estivesse sendo libertado de um eterno pesadelo. 


— Obrigado — dizia ele com um pequeno sorriso no rosto. — Q-quem é você?


— Banyu... 


— Você é linda. 


Banyu não havia entendido, mas seu coração batia forte como uma bomba. Nada passava em sua mente, e quando percebeu estava tomando o antídoto do veneno e beijando o estranho, transferindo a cura. Os olhos do estranho se fecharam, mas o coração ainda batia, então, a jovem o segurou nos braços e o levou para o meio da floresta. 


O estranho homem acordou em meio à noite, sozinho e com frio. Não sabia onde estava, nem o que havia acontecido; tudo em sua cabeça estava turvo, mas a sensação nos lábios o recordou da linda mulher que o havia matado e, de certa forma, ressucitado. Ele queria esbravejar, xingá-la e amaldiçoar a sua vida por tê-lo trazido de volta. Mas ele respirou fundo, muitas e muitas vezes e repetia para si mesmo:


— Se eu estou vivo, é porquê o meu próposito na terra ainda não foi atingido. Eu ainda tenho o que fazer aqui... O que é? — ele se perguntava, enquanto relembrava do rosto da... — como era seu nome? Bany? Ban... Bana?


— Banyu — ele leva um sobressalto ao ouvir a voz vindo da escuridão. — E você? 


— Eu... você...? Por que?


— Eu não sei... não sei porquê fiz isso — disse ela saindo do meio das árvores. — Qual é o seu nome? — Ela se aproximava.


— Não se aproxima! — Ele grita e ela para. — E-eu a-ainda sou um gu-guerreiro de Pireo!


— Você está com medo? — Ela voltava a andar em sua direção. — Não quero te machucar; eu quero ajudar. Você disse, naquela hora, você me agradeceu. Você queria morrer, não é? Fugir disso tudo. 


— Você não sabe de nada! Pare! I-imediatamente... — enquanto ela avançava lentamente em sua direção, ele andava para trás e esbarrava em uma árvore grande, caindo no chão. 


— Eu — ela estava perto demais — também quero fugir. Também não quero mais isso. 


O rapaz, ainda desnomeado, teve um lampejo, seus olhos clarearam; "eu preciso fazer isso", ele pensava. "Para o bem de todos". 


— Stier. Goldener — ele também aproximou o rosto. — É meu nome. Stier Goldener.


Banyu finalmente quebrou a distância entre os dois, selando um contrato ainda não dito com um beijo suave. 


— Podemos fugir desta guerra. Podemos pegar um navio e sair de Duniya Shiru. 


Banyu havia descoberto muitas coisas naquele dia. O sabor de um beijo, a sensação de paixão, a adrenalina de estar com um inimigo e a preocupação enquanto faziam um plano para a fuga.


— Podemos sair em 10 meses, é quando o návio de Pireo parte rumo às terras desconhecidas. Podemos entrar escondidos e sair em terra firme sem que percebam... Tomarei conta para que não nos descubram.


Stier voltou para Pireo, pois era uma das únicas formas de saber quando e onde o navio iria partir. Mas ele voltava toda noite para ver a sua amada. Decidiram que não poderiam mais matar ninguém, precisavam deixar a guerra de lado, ou então os dois poderiam morrer e só tinha duas formas de fazer isso. 


Banyu, em poucas semanas, fez a primeira forma se tornar realidade, estava grávida; A segunda forma, no entanto, era um pouco cruel demais. Ambos haviam se juntado em uma noite para eliminar a parte mais importante de um soldado: o braço. Stier, é claro, não deixou que Banyu fizesse isso consigo mesma, pois já estava esperando o pequeno milagre, então, sozinho, cortou seu braço direito e voltou à Vila, alegando incapacidade. A barriga de Banyu crescia lindamente, ao ponto que era impossível esconder da Vila. Perguntas e boatos estavam por todas as partes, mas Banyu estava tranquila, pois ela iria embora e tudo estaria bem novamente. Nada lhe importava. Nada lha aborrecia, ou pelo menos quase nada.


Seu amigo, veio assim que soube da notícia. 


— A Vila está perguntando sobre o pai, Ban. Como você escondeu isso por tanto tempo? É por isso que você parou de ir ao campo de batalha?


— Apenas alguns guerreiros de alta patente sabiam da minha condição; quanto ao pai, não posso lhe contar Seny.


Seny, seu amigo, não ficou por muito tempo, pois estava com raiva da situação. Mas Banyu tentava se acalmar, daqui uns meses ela iria embora. Estava tudo bem. 


De madrugada, como de costume, Banyu saía de sua casa, enquanto Stier lhe esperava na floresta em que se conheceram para que passassem a noite juntos e discutissem a grandiosa fuga. E naquele dia, ótimas notícias chegavam. 


— Banny! — Chamava Stier animado. — Querida tenho ótimas notícias! 


Banyu andava devagar pela enorme barriga que carregava, e Stier vinha beijando seus lábios, seu rosto e acariciando a barriga que abrigava o futuro filho. 


— O navio vai partir para o Leste, vamos para algum país do Leste, lá é quente e tem areia... um deserto! Areias vermelhas, Banny! 


Os dois riam freneticamente animados com a ideia. Nesse dia, Stier cerregou Banyu para sua Vila, pois não conseguia caminhar normalmente. O rapaz alto analisava o local, a estrada, as casas; não havia ninguém pelas proximidades. A Vila era afastada, pois em seus anos como soldado não ouvira falar daquela parte sendo habitada. Ao olhar mais a frente, viu uma grande casa numa árvore, iluminada e bonita.


— Querida, o que é aquilo? — Perguntou apontando.


— É a casa do ancião — dizia entre os bocejos. 


Quando chegaram na pequena casa de Banyu, Stier se despediu com um beijo e rapidamente sumia pela escuridão. Banyu estava feliz, os olhos quase fechavam de sono, mas em seu interior o desejo era de permanecer acordada até que o dia chegasse. Porém, ao abrir sua porta, levou um susto ao ver Seny parado no meio da sala.


— Aquele é o pai? 


— Quê? Não, eu só...


— Não minta, eu vi vocês na floresta. Um soldado de Pireo? Qual o seu problema, Banyu? 


— Você não entende, ele é — ela respirava pesadamente — diferente. 


— Você estava tão carente assim? Para ficar com um... — ele parou no meio da frase, quando as lágrimas vieram. Seny não queria que Banyu visse seu rosto se controcendo de tristeza, ódio e de coração partido, então virou as costas e, antes que saísse pela porta, adicionou — Espero que seja feliz, Banny — ele disse com desgosto na voz, imitando Stier —, de verdade, mas você é mais inteligente do que isso. Eles não são confiáveis. 


Seu amigo partira naquela noite, e não voltou a vê-lo por duas semanas. Banyu também não via Stier durante esse tempo, pois ele também estava preparando as coisas da viagem. Em um dia, ao acordar e abrir a pequena porta de madeira e sentir a brisa fria da manhã, viu um pequeno papel caído no chão, e imediatamente soube de quem era. Stier mandava-lhe cartas quando não podia encontrá-la, mas sempre as deixava escondidas na floresta, porém, agora ele sabia onde Banyu morava, e ela se emocionou ao reconhecer a letra garranchosa dele. 


"Querida Banny, a viagem foi adiantada! Espero que sua mala já esteja pronta, pois partiremos amanhã cedo. Hoje à noite quero que atravesse a floresta até o lago que divide nossas cidades e o atravesse também. Deixarei fitas vermelhas amarradas em vários pontos para que você chegue rápido e em segurança até o barco. Estarei lhe esperando lá. Não se atrase."


Banyu passou o dia ansiosa até que desse o horário, ela fez uma pequena mala de sobrevivência e conversou com o bebê que ainda estava adormecido em seu ventre, dizia o quanto estava feliz. Dizia nomes de meninas e de meninos, se perguntando o que seria. 


Quando a madrugada chegou, Banyu deixou sua casa, deixou sua vila e sua vida para trás, enquanto fazia o caminho que Stier a mandou fazer. Era longe, muito longe, suas pernas cansaram rápido, e o bebê chutava muito, lhe dando muita dor. Queria que Stier tivesse vindo buscá-la, mas, em sua cabeça, ele estava se esforçando demais para tudo isso acontecer, então ela também precisava. Ao chegar no local marcado, uma orla que separava a areia da vastidão do mar. Não havia ninguém ali, tampouco um navio. Pensou que havia chegado muito cedo, então se sentou num local escondido, esperando o momento certo. Portanto esse momento não chegou, e o dia chegava, o sol se alinhava no topo do céu, as nuvens roxas dançavam para cobrí-lo, deixando o dia nublado. 


Algum tempo havia se passado até que escutou galhos se quebrando atrás de si, então virou animada, mas se decepcionou assim que viu Seny, que chegava agitado.


— Banyu! Você está bem? Está machucada? — ele correu para examinar cada canto da mulher, como se estivesse ferida.


— Eu não vou voltar, Seny! Estou bem, me largue agora e vá embora! Stier virá a qualquer momento e não pode te ver aqui...


— BANYU! — ele gritou — Ele NÃO vem, Ban. 


— O que você está dizendo? Ele... ele virá, veja! — disse ela entregando a carta. — Ele virá, Seny, e iremos embora.


O rapaz loiro e queimado do sol amassava o bilhete enquanto se segurava para não dizer alguma bobagem. O seu olhar era de pena, de desespero. Havia tanto para contar, mas pouco tempo para agir. 


— Ele não vem, Ban. O návio dele partiu... sem você. Veja — ele mandou, apontando para o horizonte, onde um navio se encontrava, bem, bem longe. Distante demais. — Ele te enganou Ban. Ele enviou exércitos para a Vila e... 


Em segundos, os olhos de Banyu se arregalaram. Eram muitos sentimentos. Ela tentou correr, mas uma pontada de dor a fez cair e gritar. Estava vindo. 


— Não... não, agora não. Por favor. — Ela chorava e implorava para alguém, para algo. 


Seny falava, mas ela não conseguia ouvir; a dor era latejante, era horrível de suportar e ela gritava alto, enquanto era carregada às pressas por seu amigo. 


Ela não sabia mais o que era realidade ou alucinação, mas ouvia alguém dizer "aguenta firme" o tempo todo. Quem era? Stier? Não, ele a havia deixado para morrer. Era Seny, seu melhor amigo. Ela sentiu respingos de água batendo em seu corpo; estavam no lago que separava as cidades, e logo depois fora colocada no chão sujo de terra, deitada. 


— Ban, eu vou buscar ajuda, não se preocupe. Fique aqui. — Ele gritava, ansioso e preocupado, mas Banyu segurou seus braços e tentou dizer por entre as lágrimas:


— Não, por favor, fique comigo — ela gritava de dor, sem conseguir falar direito — por favor, não me deixa aqui. 


Seny não sabia o que fazer, Banyu também não. Não sabiam fazer nada além de gritar um pro outro vários pedidos de desculpas, enquanto soluçavam de tanto soluçar. Banyu gritava de dor, gritos agudos, mas quando ela olhou para seu amigo, que segurava forte sua mão e viu que as lágrimas dele também caiam, ela riu. 


— Você sempre foi um chorão. 


Os dois riram, e ela fazia força. Ela rezava para os deuses que não apareciam há tempos. Alguém precisava ajudá-la. Alguma deusa, algum deus. Alguém. Mas ninguém veio. Seny se esforçava para descobrir como fazer aquilo. Sua mãe era parteira e ele já havia visto isso tantas vezes, mas sempre desmaiava de medo quando via o sangue. Agora não era hora para isso, então ele respirou fundo e, de repente, um terceiro choro apareceu.


— É um menino, Ban.


— Eu sei. Seu nome é Nilo. 


Banyu tentou se levantar, com muita dificuldade, para ver seu pequeno milagre. Era lindo. Um bebê gordinho, ele iria ser forte, igual sua mãe que, no momento, não sabia se ria ou se chorava. Algo ainda doía dentro de si, e agora não era mais a dor do parto, era a dor da perda. Ela sabia que não poderia ficar com o pequeno Nilo, ela sabia que morreria, o sangue escorria como um rio em movimento e ela estava fraca demais. Seny percebeu e entrou em desespero, estava perdendo sua amiga, sua amada. O bebê estava se esgoelando por ter sido colocado num amontoado de folhas, longe de sua mãe. 


Em meio ao caos, uma quarta pessoa surgiu do outro lado do rio. Era uma garotinha, de aproximadamente 11 anos, com cabelos brancos, pele avermelhada e olhos roxo vibrantes. 


— Q-quem é você?


— Dewi. A princesa Dewi Udan. — Ela disse, enquanto olhava para a criança chorosa e ensanguentada. — Quem é esse ai?


— Nilo... meu filho. Você... por favor, ache uma família para ele. Eu não irei sobreviver. — Banyu chorava.


A garotinha atravessou o rio, molhando seu vestido sem problema algum. Chegou perto das três pessoas que estavam ali, olhou o bebê e sorriu. 


— Cuidarei que ele esteja numa boa família. — Ela pegou o bebê sujo de folhas. — Você, é a guerreira Banyu, não é? 


— Como sabe quem ela é? — Perguntava Seny.


— Eu sonhei com ela. Sonhei com isto. Sinto muito — ela olhou para a mulher prestes a morrer — sinto muito Banyu. Te desejo uma passagem em paz para o outro lado. 


A princesa se levantou com o bebê nos braços, deixando os dois adultos para trás e caminhando de volta para o castelo.


— Você terá uma boa família, Nilo. E sua mãe será lembrada por mim como uma grande mulher. 


Banyu morreu rapidamente, Seny chorava aos prantos, desesperado. Ele pegou seu corpo sem vida e saiu marchando para dar um enterro digno à ela. Longe do caos de sua vila, longe de tudo. 


Em alto mar, um homem alto e branco olhava para a terra que ia se afastando. Seu rosto era indecifrável. 


— Você cumpriu seu propósito, Stier, quero dizer, General Goldier. — Disse um homem gorduxo, batendo em seu ombro. — Espere, não está arrependido, está?


— Não — mentiu, enxugando as lágrimas que ameaçavam cair.


— Que bom. Você fez bem em vir nos contatar imediatamente sobre seu plano. Sinto muito pelo o que perdeu — disse ele apontando para o espaço vazio em que deveria estar seu braço.


Mas não era nessa perda que Stier pensava. Pensava em Banny, pensava no bebê, cujo jamais veria ou saberia seu nome. Estava arrependido? Ele havia mandado Banyu para um lugar afastado, onde não seria ferida. "Ela estará bem", ele pensava. Mas jamais saberia a verdade. 


General Stier Goldier.



VOCABULÁRIO:


Onkára --- UM TIPO DE FELINO CRIADO PARA

 O MUNDO; EM BREVE SERÁ EXPLICADO


 Ipurã --- ANIMAL AQUÁTICO CRIADO PARA O MUNDO


Uirak --- AVE CRIADA PARA O MUNDO


 Escorpidé.* UMA COBRA ESCORPIÃO CRIADA PARA O MUNDO


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