GATO CHICO 1.0
O PEQUENO GATO CHICO
O dia finalmente começa, o sol surge e muda a cor do céu a cada segundo: roxo, rosa, laranja e azul. A rua tão silenciosa começa a se movimentar, os adultos que aqui vivem ligam seus carros e partem para mais um dia monótono e deprimente de trabalho. O sol, para eles, nasceu à toa. Crianças saltam enquanto vão para a escola, as bolsas sacudindo e as mães de aparência cansada quase desmaiam no meio-fio. Alguns colegas passam desejando-me um bom dia, e eu retribuo sem demora. Tenham todos um lindo dia.
O Senhor dos Cliques sai de casa de pijama, sem nem se importar. O pijama de patos de borracha é tão enjoativo e tenebroso quanto os gritos dos meus vizinhos de trás. Apesar disso, eu e o Senhor dos cliques somos muito parecidos, ambos somos observadores que captam a beleza da natureza. Ao contrário das pessoas que saíram para trabalhar, o Senhor dos cliques anda de chinelos e admira a beleza do nascer do sol, enquanto sua máquina fotográfica murmura. “Click” “click”.
O barulho da manhã é composto pela melodia da natureza, o balançar das árvores com o vento matinal, com os cliques do Senhor dos Cliques e… bom, um miado. Esse, de fato, seria um barulho comum, mas aquele miado choroso que pedia socorro era novo na área. Acredite se quiser, eu entendo de barulhos. As pessoas normais não ouviriam aquele filhote, mas o Senhor dos cliques era diferente, ele não só ouvia, mas como sentia! No final da rua havia uma caixa de papelão desgastada e rasgada; pude ver aqui de casa que a moradia era precária.
Maldito seja aquele que proporciona desconforto e mágoa aos seres mais puros que existem. O estranho senhor de pijama estranho foi andando lentamente até aquela caixa – também estranha. Era um conjunto de estranhezas combinadas pelo momento perfeito, o encaixe daquele minúsculo felino nos braços magros cobertos pelos patinhos de borracha era o que faltava para o sol raiar de verdade. E a partir desta linda manhã, começa a aventura de um pobre gatinho e seu velho dono esquisito.
Não demorou muito para que uma nova rotina a ser observada pela manhã surgisse: graças ao pequeno gato Chico, o meu velho vizinho parecia mais feliz. Era uma mistura de “Chico para lá” e “miau para cá” o tempo inteiro, mas sempre carregado de felicidade e risos. A cadeira de vime, outrora abandonada, começou a ser usada todo santo dia, balançando para frente e para trás, para frente e para trás e para frente e para trás, até que ambos adormeceram. O pequeno Gato Chico, com sua pelagem cinza e seus olhos tão verdes e vívidos, sonhava tranquilamente enquanto era acariciado pelo meu vizinho.
O Senhor dos Cliques vive solitário nessa vizinhança desde o dia do meu nascimento, não houve uma alma viva que viesse visitá-lo nos últimos anos. Meus amigos também não souberam informar muito sobre ele, mas soube que já esteve casado há muitos anos. Não sabem o que se passou com a Senhora dos Cliques, mas eu nunca a vi e acho que jamais verei.
Pela escassez de visitas, decidi vestir minha melhor roupa amarela e passar alguns segundos para desejar as boas-vindas ao novo morador da rua, mas mesmo fazendo barulho, não me ouviram, então deixei para outra hora.
O pôr do sol não é tão bonito quanto o seu nascer, mas ainda carrega sua essência e beleza. Os animais saem das ruas, o barulho diminui, os carros voltam para as garagens e o cheiro do jantar invade a rua completamente. Nesta cidade grande, as estrelas não aparecem, e tudo é sempre apagado pela quantidade de poluição e grandiosos – e inúteis – prédios. Sim, os prédios! Malditas construções infelizes que tampam o céu e impedem que todos vejam o céu! Porém, hoje a lua está cheia, é muito bem visível. Creio que pude ver uma estrela-cadente fervorosa e brilhante passar por cima da minha cabeça. Uma boa noite, de fato, para todos nós.
Os dias quentes de dezembro se passaram extremamente devagar, mas pude trabalhar muito na minha análise e observação do felino cinza. Seu rosto, ainda tão pequenino, com aqueles olhos verdes grandes e brilhantes que te fazem lacrimejar de emoção. Seu corpinho está deixando de ser frágil e começando a parecer mais saudável – e bem gordinho.
Nos primeiros dias, Chico e seu dono ficaram em casa fazendo sabe-se lá o quê a maioria do dia, mas pela manhãzinha sempre ficavam na cadeira de balanço. Agora, os dois saem pomposos para dar um passeio pelo parque, meu velho vizinho carrega sua câmera, enquanto Chico vai balançando dentro da bolsa que o Senhor leva. Era uma cena linda de se ver; os dois pareciam felizes. Por alguns segundos, pude sentir a inveja chegando ao meu pequeno coração.
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Em um dos dias mais quentes do mês, vi Chico na calçada sozinho, matando algumas baratas e correndo ao redor do rabo. Ele corria em círculos, sem sair do lugar, e miava bem baixinho, dificilmente alguém ouviria, a menos que estivesse prestando a devida atenção, como eu sempre faço. Apesar disso, Chico não saía de frente do portão, parecia esperar algo (ou alguém) importante. Era como uma mulher esperando sua encomenda tão aguardada ou como uma adolescente aguardando seu namorado. Talvez como um senhor, apenas olhando para os lados, porém sem de fato estar esperando alguém, mas talvez desejando que algo interessante aconteça.
Fiquei algumas horas observando aqui de cima, em completo silêncio e calma, apesar de sentir inúmeras vezes a vontade de ir até Chico para perguntar o que havia acontecido e qual seria o motivo de sua longa espera, mas me contive por tempo suficiente para que, finalmente, eu pudesse compreender a situação.
Chegando num carro velho, seu dono descia sorridente, acariciando os pelos acinzentados do gato e perguntando em voz alta e aguda: “O que está fazendo do lado de fora? Como saiu?”. Pelo visto, o Senhor, meu vizinho, esteve fora pelas últimas horas, e Chico (cheio de ansiedade) não pôde esperar dentro de casa, sem entender para onde tinha ido seu único amigo. Penso comigo e me pergunto se ele se sentiu novamente abandonado.
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No dia vinte e cinco de dezembro, acordei com os gritos das crianças ao abrir seus presentes que o “Papai Noel” havia deixado na sala de estar. As crianças, felizes com seus presentes, não conseguiram segurar a animação e a gratidão ao velho gordo e hipócrita do polo Norte. Apesar de estarmos no Brasil, um país em que a cultura natalina não atinge toda a população, todos os anos a mesma casa faz a sua tradição, com presentes, café da manhã especial e jantar chique (dentro do possível) na véspera do dia. É uma família bacana, com um minúsculo jardim muito bonito que ajudei dando algumas sementes.
O Natal desta vez foi diferente para o meu vizinho e seu novo amigo. Neste ano, o Senhor estava mais animado e decidiu comemorar com Chico, tendo até decoração externa com um mini-papai Noel subindo à parede e pisca-pisca para todos os lados. Descobri no final da tarde que Chico havia ganhado uma roupa de Natal, mas infelizmente não pude ver, portanto, não consigo dar uma opinião.
No final do dia, percebi que nunca havia ficado tão feliz em toda minha curta vida quanto hoje, mesmo que eu não tivesse feito nada para ninguém e ninguém tivesse feito nada para mim. Foi um dia solitário e comum, assim como todos os outros, mas saber que Chico estava numa casa quentinha e recebendo amor e carinho me deixava feliz o suficiente.
Os meses foram passando e Chico foi crescendo e amadurecendo. Bom, isto é, na medida do quanto um gato pode amadurecer. Fiquei de longe, como sempre, para observar seus passos macios e silenciosos. Chico havia aprendido que estava acima de muitos bichos na cadeia alimentar e, na minha humilde opinião, os felinos poderiam estar até acima dos humanos, mas ainda não haviam descoberto.
Já tem quase um ano desde que o pequeno Chico surgiu em nossas vidas, naquela caixa velha e com todos os seus machucados e traumas que não posso – e nem quero – imaginar.
Ele se tornou mais veloz, mas ainda era muito medroso! Com aquela cara de pidão e com seus olhos grandes esverdeados, ele andava pela pequena garagem, esperando que um novo amigo surgisse para lhe fazer companhia. Seu dono ainda trabalhava e tinha uma vida adulta para resolver, então não podia ficar naquela cadeira de balanço o tempo todo, portanto, era comum ver Chico sozinho. Mas o mais interessante em ver Chico sozinho foi que, em algum momento, ele decidiu que a garagem era pequena demais para manter sua ansiedade, sendo assim, se aventurou para conhecer novos horizontes que a curta vizinhança tinha a oferecer. Claro, ele começou pelo começo, na casa da vizinha M, uma jovem e linda mulher que fazia sabe-se lá o quê da vida, já que estava sempre dentro de sua casa.
Esse dia foi particularmente um tanto engraçado, sua pouca experiência de invasão de propriedade resultou em jarros quebrados e pelos eriçados pelo susto ao ouvir M. gritar histericamente pelo susto. E foi assim que descobrimos que nossa vizinha era hiperalérgica a pelos de animais! O que é uma pena, pois eu daria tudo para acariciar Chico, com seu padrão de pelo rajado em tons de cinza.
Apesar da péssima primeira experiência com o mundo afora, Chico havia começado sua nova rotina: quando seu Dono saía para resolver sua vida chata e cansativa, o pequeno jovem Gato saía pelo portão e se divertia até o retorno do seu fiel e amado pai, que, quando chegava, abraçava e beijava a cabeça de Chico. Será que um dia ele vai descobrir por onde aquele gato enfia sua cabeça? E por quais lugares estranhos, quais bichos peculiares entram naquela boca “ferina”? Espero estar por perto quando acontecer, imagino que será engraçado.
O outono ousa chegar e atrapalhar minha rotina solitária e observadora com seu frio e ventanias insuportáveis. Terei de viajar por alguns meses, mas pretendo retornar em breve, para continuar o acompanhamento da trajetória do Pequeno Gato Chico.
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