GATO CHICO 3.0

 O VELHO GATO CHICO


“Para que servem as mãos? Para pedir, prometer, chamar, conceder, ameaçar, suplicar, exigir, acariciar, recusar, interrogar, admirar, confessar, calcular, comandar, injuriar, incitar, teimar, encorajar, acusar, condenar, absolver, perdoar, desprezar, desafiar, aplaudir, reger, benzer, humilhar, reconciliar, exaltar, construir, trabalhar, escrever…” – Monólogo das mãos

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As mãos, na minha opinião, são as partes mais importantes do corpo humano. Honestamente? Adoraria ter mãos de verdade e não – bom, voltemos: Com as mãos você pode fazer muito mais do que imagina. De acordo com os linguistas, o significante é o material, um objeto, uma imagem; mas o significado é a mensagem que aquilo realmente passa. 

As mãos, ou seja, o significante, são apenas membros do corpo humano. Mas o que elas significam? Ao segurar a mão de um amante, significa que você o ama. Ao segurar um sanduíche, significa que você está com fome. Ao acariciar seu gato pela última vez… significa que é uma despedida.

Nunca fui de chorar, não sei se sou capaz disso fisicamente, mas posso afirmar que meu corpo está derramando lágrimas desde a última sexta-feira. Ao contextualizar, informo que não me responsabilizo.

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Sexta-feira, 13 de outubro

O velho Senhor dos Cliques já não se sente tão disposto, não senta mais na cadeira velha de balanço com Chico, e tampouco o leva ao parque. Quase não para em casa, entra em carros, em vans e volta depois de dias. Chico, como já havia explicado anteriormente, não fica em sua casa enquanto seu dono não volta, ele come da ração de outros gatos, bebe de outra água e recebe carinho de outras mãos. Quando o dono volta, Chico retorna para seu lar. É assim há anos. Mas depois de hoje, Chico nunca mais irá voltar para sua casa, nem para sua cadeira de balanço, não haverá ração de qualidade, passeios ao parque e muito menos fotografias, carinhos, beijos ou qualquer tipo de conforto. Lá se foram os 17 anos de felicidade.

 Chico agora era bem maior, sua cor era mais opaca, mas ainda era o gato mais bonito da cidade. Se eu pudesse interpretar os sentimentos de Chico apenas olhando para seu rosto, diria que ele vive sempre com raiva. Os olhos verdes delineados deixam sua visão marcada, de alguma forma, ele não parece nada simpático, também não é mais tão carinhoso. 

Ele nunca mais voltou para sua casa, pois seu dono também não retornou, e ninguém de sua família havia ido buscá-lo. O restante de sua vida será nas ruas, esperando por alguém que nunca mais vai aparecer. É o que me entristece mais: Chico nunca saberá que ele morreu, apenas que foi abandonado novamente.

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Chico passou por poucas e boas nos últimos meses: pulgas, emagrecimento, sede, fome e saudade. Foram tempos difíceis. Não digo como se estivesse tudo às mil maravilhas, mas algo está mudando. 

Os vizinhos se solidarizaram com Chico, havia muitos carinhos por todas as partes, mesmo que ele estivesse arisco e selvagem. Ele ainda não tinha um lar – talvez nunca mais tivesse, mas agora ele tinha alguns tetos para ficar debaixo. Ou carros para ficar em cima… Nosso velho gato criou um engraçado costume de dormir em cima dos carros dos vizinhos, que não aprovaram de início, mas que foram obrigados a aceitar com o tempo. 

Com o tempo a vizinhança começou a colocar potes de ração e água para Chico, havia um que lembrava seu antigo dono, carregava seu celular para cima e para baixo, tirando fotos de Chico, mesmo que contra sua vontade com miados de reprovação. Chico não foi adotado por ninguém, mas foi amado por muitos. Apenas eu sei o quanto as pessoas o queriam dentro de suas casas, mas é difícil adotar um gato velho com costumes antigos que a primeira coisa que faz quando entra na casa é arranhar o sofá. 

Por quase dois anos a situação ficou estável, sem nada grandioso. Algumas brigas com cães, alguns dias com fome e outros na solidão. Mas então começaram as demolições, e não havia casa que não fosse comprada pelos grandes homens. Vende-se imóvel. 

As casas eram vendidas pouco a pouco, a ração foi diminuindo, os carinhos foram acabando e tudo o que restava daquela rua era poeira. Algumas famílias pensavam em levar Chico para outro lugar, mas Chico não conseguiria ficar preso em uma casa longe da sua rua. Era impossível, eu sei disso. E então, carros e caminhões iam e vinham, até que não sobrassem muita coisa ou muitas pessoas.

Em alguns meses não havia mais alguém que desse carinho a ele, então Chico voltou à solidão. Brigas com cachorros o dobro de seu tamanho, invadindo casas para ter um teto nos dias chuvosos e comendo o que achava na rua. Ele já estava velho e parecia sempre triste, ele não aguentaria por muito mais tempo, e eu também não, pois a idade chega para todos. 

No dia 2 de novembro Chico desapareceu. Eu precisava viajar, mas não me sentia em paz em ir sem saber onde estava o gato velho, então permaneci no bairro enquanto amigos e familiares voavam para longe. Foram duas semanas, assim me recordo, procurando por ele: nas casas, terrenos vazios, praças, esgotos e carroças. Duas semanas de sofrimento e agonia em meu coração. Não sabia mais onde procurar, mas continuei pensando, pensando e pensando… Ah! Seria por alí?

Fui o mais rápido que pude, antes que minha memória enfraquecesse e meu palpite sumisse, voei entre as árvores, lutei contra o cansaço da idade e ainda tive que fugir da chuva. Mas então eu cheguei, e lá estava Chico. Virando muitas esquinas, ali estava ele, dentro de uma caixa de papelão velha e molhada, igual no dia em que ele apareceu. Cheguei perto da caixa, pousei no pelo macio do gato, mas não senti nada. Não havia calor, respiração, nem mesmo um miado raivoso. Não tive coragem de bater as asas, é claro, então permaneci ali na chuva e precisei segurar as lágrimas que chegavam, mas observar o rosto felino sem vida era demais até mesmo para mim. 

Como bom observador, pude assistir a sua vida inteira, todas as mágoas, as brigas e as comédias. Me diverti como nunca, mesmo falando com você. Fazer meu ninho naquele lugar fez com que minha vida tivesse um propósito além de voar por aí e despejar sementes. Bem te vi todos os dias, por 17 longos anos. E agora, seu corpo frio descansa junto ao do seu dono, enquanto eu voarei para longe a fim de ter meus últimos momentos em paz e longe do caos metropolitano. Pensarei em você e em seu dono, lembrarei de Bart e de sua dona. Lembrarei de mim que não tive alguém para chamar de “meu”, mas ficarei feliz de lembrar que presenciei os dois melhores casos de amizade e amor deste mundo. Agora eu digo adeus. Aos vizinhos, ao céu, ao sol e às cores. Digo um até logo para Chico e digo adeus a você, caro leitor.

Comentários

  1. PERFEITO, FOI O PLOT PARA MIM O "Bem te vi.." GATO CHICO FOI PERFEIÇÃO

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