Lua de prata

 A luz do luar é a imagem mais bela que o universo poderia me proporcionar. A natureza é charmosa ao todo, mas a lua aparenta chamar meu nome todas as noites. Há noites em que a lua não aparece, deixando um enorme vazio em meu peito. Sinto que possuímos uma amizade inigualável, amizade que jamais tive ou poderia ter com algum ser humano. Os meus maiores segredos são direcionados a ela. A Lua sabe sobre mim muito mais do que eu mesmo. Por 19 anos eu fui internamente invadido pelo amor que sentia por ela. Mas tudo mudou numa bela noite de inverno.  

O frio congelante poderia me matar, as noites na praia podem ser muito perigosas, porém eu focava o olhar para o céu. Quando percebi que a lua de refletia no mar, fiquei dividido para qual lado olhar. Cada um reverbera beleza e paixão. Não sabia qual era o horário, tampouco me importava, tal como frio que seguia sem me atrapalhar, mesmo que eu estivesse vestindo apenas uma regata e bermuda. O silêncio se quebrou quando uma voz suave tocou melodiosamente pelo ar.

— É linda, não é?

Por um momento, imaginei que a lua finalmente estivesse falando comigo, mas ao me virar, pude ver o ser mais belo que meus olhos poderiam me permitir visualizar. Os cabelos escuros e volumosos voavam com o vento, sua pele negra reluzia ao luar. Não sorria, mas estava contente e tão admirada pela Lua quanto eu. 

Não pude responder, não sei se por covardia ou para que o momento não fosse estragado. Não soube quantas horas se passaram, mas ao ver os primeiros raios de sol surgirem, me permiti ir embora, contudo, ao olhar para o lado, a bela dama que estivera comigo há pouco, não estava mais sentada na areia. Não havia sinal dela aos arredores. 

Caminhei de volta para casa, sentindo o vento bater em meu rosto e, em meus pensamentos, imaginei que a garota fosse apenas uma ilusão. A beleza vista não poderia ser tão real, o sumiço repentino apenas comprovava que havia sido sua mente pregando uma peça para não se sentir tão sozinho. 

Não havia uma alma pelas ruas, estava tudo tão deserto que parecia que ninguém morava ali. Confesso que a cidade não era populosa, poucos moravam por ali e, por serem tão poucas pessoas, todos sabiam da minha obsessão pela Lua. 

Esse fato era mais uma prova de que a beldade da noite anterior não passava de uma miragem, certamente reconheceria alguém como ela. 

Tentei refazer a imagem em minha mente, precisava lembrar-me dos mínimos detalhes, mesmo que eu sequer a tenha observado tanto. Assim que entrei em meu quarto, resgatei meu velho material de pintura, que há anos não via a luz do dia, ou da lua. 

Minhas pinceladas eram suaves, combinavam com sua voz, os traços eram precisos e pretendia acertar a cor perfeita de sua pele. Os cabelos cacheados não foram fáceis de reproduzir, mas fiz o possível. Reproduzi o cenário da praia, adicionei a luz da lua que refletiu seu rosto e me peguei pensando no porquê de tudo aquilo. Por que eu me importava tanto? Mesmo que estivesse confuso, não deixei de pintar até que estivesse satisfeito. 

O vento bateu tão forte na janela que tomei um susto, a respiração parou e fui tomado pelo vento e seu assobio. O inverno de junho podia ser superficial em sua grande maioria, mas também havia dias em que nem a lareira ou o banho quente ajudavam. Por morar perto da praia, os ventos eram mais fortes, as árvores balançavam até que quase caiam. 

Enquanto divagava sobre o vento, percebi que havia finalizado a bela pintura, talvez não estivesse tão precisa, mas estava ali. 

Minhas mãos estavam doloridas, meus olhos estavam cansados e eu não havia dormido a noite anterior, portanto caminhei até a cama e desmaiei, deixando que o sono me levasse embora. 

Às 23:57 as janelas batendo me acordaram. O vento estava mais forte, fazia minha cabeça latejar e meu corpo se arrepiava. Havia dormido demais.

Olhando para o céu, vejo que a chance de cair a chuva é grande. Está tudo nublado, temo não poder vê-la hoje. De quem eu estava falando exatamente? Gostaria de não ter essa dúvida em minha mente. Ou em meu coração.

Mesmo que eu soubesse que minha tentativa de ver a lua hoje seria falha, tomei a decisão de sair de casa. Dessa vez, carreguei uma jaqueta e um guarda chuva. Nem o pior dia me faria faltar, não importa a densidade da chuva, tampouco o vento cruel me fazia voltar atrás. 

Quando meus pés tocaram a areia, senti o vento bater em meu rosto. As ondas estavam fortes e a Lua meio escondida, mas eu ainda podia vê-la. 

Porém, por algum motivo, meu coração estava inquieto, batia fortemente e havia uma mistura de desejo e esperança. Olhei para os lados inutilmente, pensando que a encontraria novamente, mas estava tudo deserto.

Andei até o exato local em que estive para observar a lua nos últimos 15 anos, o mesmo local em que a encontrei ontem a noite. Era um amontoado de pedras, havia um coqueiro próximo, o qual desenhei várias e várias vezes para atingir a perfeição da natureza. 

A chuva ainda não havia chegado e a lua estava visível. Lua cheia, a mais bela e luminosa de todas. Mas, por algum motivo, meu coração não estava em paz, a luz do luar não preencheu meu vazio e isso resultou em grande desespero. Pequenas mudanças faziam minha cabeça rodar, meu corpo entrava em conflito com a mente e nada mais funcionava. 

Tive que respirar fundo, o ar gelado me incomodou e, — pela primeira vez em muito tempo — me enfureci. Não pude sequer observar o horizonte, não pude olhar para ela. Me pus de pé na areia e comecei a andar lentamente de volta para casa. No entanto, quando estava prestes a deixar a areia da praia, comecei a ficar tonto, minha visão escurecia e, em segundos, já estava desmaiado no chão.

Não tive certeza quanto tempo se passou desde que desmaiei sem motivo — não, houve motivo com certeza, mas não soube decidir se era por não comer e dormir direito há dias ou, se me permite ser supersticioso, que a lua não havia aceitado minha desistência e me obrigou a ficar. 

Estava amanhecendo, meus ouvidos captaram o som do mar, mas havia uma voz misturada, uma voz suave, que eu pude reconhecer facilmente, mesmo ouvindo-a apenas uma vez. Essa ‘voz’ me deu forças para que eu pudesse levantar, mas ao mesmo tempo eu sentia que meu corpo não me pertencia mais. Me sentia como uma marionete, e alguém controlava meus passos. 

O desespero surgiu quando percebi que caminhava para água, tentei lutar contra a hipnose, mas não adiantava. Minhas pernas e braços não me obedeciam, e eu caminhava lentamente para o mar, para minha morte, para meu mais profundo trauma: a imensidão das águas escuras e profundas da Praia Lunar. 

Eu tentava fechar os olhos, e implorava para que eu pudesse acordar ou voltar a me mexer, mas eu ouvia a risada zombeteira, achando graça do meu nervosismo. Apesar do desespero, me surpreendi quando abri os olhos e percebi que eu andava sobre as àguas. Eu sentia as gotas geladas sob meus pés, mas não afundei em momento algum. Minha mente se encontrava em completo caos, sem entender o real significado daquilo.

O céu mudava de cor, como se já estivesse amanhecendo, mas em poucos momentos a noite voltava. A chuva caia, mas logo parava. O tempo estava uma bagunça, pude sentir os ponteiros do relógio martelando minha cabeça. Mesmo encarando tanta informação, pude sentir a presença de alguém. Um alguém que já conhecia. 

Aquela jovem moça do outro dia, o rosto que pintei e admirei por tantas horas estava olhando o fundo da minha alma. Foi aí que percebi, que a lua falava comigo na sua forma mais pura, e mesmo com a voz suave, eu sentia calafrios com os sussurros. 

"Sinto muito"

Senti que meus pés afundaram lentamente na água, sendo puxados por uma forma sobre humana. 

Não tive tempo de me desesperar na terra, mas agora o mar me sufocava. Meu oxigênio foi cortado, meu cérebro estava parando de funcionar, não pude sentir muito mais do que a dor. E no fim da minha vida, uma melodia surgia.

A Lua de prata no céu e o brilho das estrelas que pude ver nas profundezas, eram lindas e dolorosas ao mesmo tempo. Tenho certeza de que não sonhava, e a noite tão linda continuava. Uma voz tão doce me falava, "O mundo pertence a nós, e agora somos apenas um. A lua e seu reflexo."


 - Eros 

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